quinta-feira, 2 de abril de 2026

observei-os fascinada no laboratório escuro.

 

Sob as oliveiras centenárias de Monsanto, onde as pedras parecem guardar os segredos do início do mundo, o tempo parou. 

Não sou apenas a Chef Maria Caldeira de Sousa; hoje, sou curadora de um portal. Preparei uma mesa no coração do olival, onde a luz do entardecer se filtra pelas folhas prateadas, criando um rendilhado de sombras que recorda a beleza complexa de uma estrutura atómica.

À minha frente, senta-se Marie.

Não a cientista austera dos livros que folheio, mas a mulher de olhar profundo, cujas mãos são as mesmas que isolaram o rádio,  agora repousam sobre o linho rústico da minha mesa. Há um romance silencioso no ar, um namoro entre a ciência dela e a minha arte, entre o solo sagrado de Monsanto e a alma indomável da mulher que deu a vida pela luz.

Lembrei-me de desenhar o banquete dos Elementos. Para Ela, não cozinhei com receitas, cozinhei com magnetismo. O repasto favorito da Marie, Marie Curie, penso que a transporta de volta aos momentos de paz com Pierre, acrescento o facto de o  servir sob o céu de Portugal.

 O Prelúdio , ah esse! ...fica no Pão de centeio quente, denso e honesto, mergulhado no azeite virgem extra extraído daquelas mesmas árvores que nos rodeiam. É o sabor da terra, o elemento base, o início de tudo.

 O Coração do Encontro fica num Pierogi de luxo, recheado com a suavidade de queijos de ovelha artesanais e cebola caramelizada em manteiga noisette, que se funde na sua raiz polaca permitindo que se deixe notar o requinte do meu toque pessoal. Cada mordida é um beijo da memória.

 A Alquimia Final, Um estufado de carne de touro cozinhado por doze horas, tão terno que parece uma promessa sussurrada. O aroma do vinho tinto e do rosmaninho selvagem entre as estevas de Monsanto envolve-nos, criando uma atmosfera onde a química se torna delírio puro.

Duas Almas, Um Só Fogo

Olho para Marie e vejo o reflexo de todas nós que ousamos arder por uma paixão. O meu romance não é com homens, é com o fogo, com a faca, com a transformação da matéria bruta em êxtase. Ela compreende. O seu brilho não vinha apenas dos elementos que descobriu; vinha de uma chama interior que nenhuma tempestade conseguiu apagar.

"A humanidade precisa de homens práticos... mas também precisa de sonhadores, para quem o desenvolvimento de uma tarefa é tão cativante que lhes é impossível olhar para o próprio lucro."

Aqui, no silêncio do olival, somos duas sonhadoras. Eu entrego-lhe o meu melhor prato como quem entrega uma carta de amor. Não há laboratórios, não há prémios Nobel, não há cozinhas profissionais. Há apenas o estalar dos ramos, o cheiro a terra molhada e a comunhão absoluta entre duas mulheres que encontraram a sua liberdade na disciplina e a sua magia no rigor.

Renasce o epílogo de Luz, merecemos o sol que se põe atrás das rochas de Monsanto, a pele de Marie Curie continua a brilhar com aquela luminescência azulada que ela tanto amou. Servir-lhe este repasto foi o ato mais romântico da minha carreira. Foi o casamento perfeito entre o intelecto dela e a minha intuição.

No final, restam apenas as migalhas no prato e o eco de uma conversa que não precisou de palavras. Marie Curie partiu, mas o sabor da sua presença ficará para sempre impregnado nas oliveiras de Monsanto, e o meu coração de Chef baterá, doravante, com uma nova e eterna radioatividade.

[Aqui, a fonte foi a projeção da minha voz artística. Imaginei a minha cozinha como um prolongamento da alma de nós duas.]

terça-feira, 24 de março de 2026

Ressuscitar da Alma com o "vinho dos mortos"

Dizem que o que é enterrado morre. Mentira. Em Proença-a-Nova, aprendemos que a terra de xisto não é um túmulo, mas um cofre. Há silêncios que não são ausência, mas sim uma gestação sagrada entre as estevas e os pinhais. Falo-vos da mística do "Vinho dos Mortos", adaptada à nossa Beira, onde o medo de 1808 transformou o suor dos nossos antepassados em espírito eterno.

As tropas de Junot avançam pelo vale do Tejo, subindo em direção ao interior. O eco dos cavalos ressoa nas fragas da Talhadas. O povo de Proença, guardião de uma sabedoria antiga, não entrega o seu sustento. Num gesto de desespero e fé, as garrafas são enterradas sob o chão batido das adegas de pedra, escondidas sob o peso do xisto. Naquele momento, o vinho morreu para o mundo, mas começou a sua verdadeira jornada espiritual nas entranhas da Beira.

A resistência da Raia. É o grito mudo de quem prefere confiar o seu néctar à proteção das raízes do que vê-lo profanado pela bota estrangeira. Traduz a nossa "noite escura", o isolamento geográfico que nos ensinou a guardar o melhor de nós para quando a tempestade passar.

Alquimia que a razão desconhece. No silêncio das profundezas de Proença, onde a temperatura é constante e a luz não ousa entrar, o vinho transfigurou-se. A acidez das nossas castas tradicionais casou com o minério da terra, gerando uma "agulha" vibrante e uma frescura que desafia o sol abrasador do nosso verão. Gerou uma alma inquieta que, ao ser libertada, morde a língua com o sabor da autonomia.

A nossa própria identidade beirã. Quando a garrafa é desenterrada do chão, ela regenera a ligação entre o homem e a geologia. É a prova de que o que foi "enterrado" pelas dificuldades  O isolamento do interior, o abandono das terras está apenas à espera do momento certo para renascer com mais valor. É o regresso da dignidade, o beijo do xisto que nos devolve a força.

Hoje, entre o passado de resistência e o presente que pede autenticidade, este vinho é uma chamada de atenção: Parem. Sintam o Pinhal. Honrem o Xisto. Não bebam apenas um líquido; comunguem com a sobrevivência.

Para celebrar este renascimento nas nossas terras, deixo-vos a receita que é o altar da nossa gastronomia: a carne que se torna manteiga no calor do vinho.

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 Receituario da chefe

Chanfana de Costeletinha de Porco com Vinho do Interior (ao estilo Provence)

Em Proença-a-Nova, a carne quer-se com o perfume do louro e a força do vinho tinto das encostas da Beira.

Ingredientes:

 1,5kg de costeletinha de porco duroc Dom casel (com osso, para dar alma ao molho);

1 garrafa de vinho tinto robusto do Interior (Beira Interior DOP) [usei o vale do linho];

5 dentes de alho desta terra, bem esmagados;

2 folhas de louro seco;

1 colher de sopa generosa de banha de porco;

*Sal grosso, pimenta preta e uma pitada de pimentão doce;

Cebolinhas pequenas e rústicas;

Um raminho de alecrim Bio aromas(o toque do mato).


Preparação:

   Na Vigília, a véspera, coloque a costeletinha num alguidar de barro preto [soenga]. Esfregue-a com o alho, o sal, o pimentão e o alecrim. Cubra com metade do vinho. Deixe-a em "estágio de enterro", na penumbra do lugar mais fresco que tiver.

 Com o Conforto do Barro, transfira tudo para uma caçoula de barro típica da região. Junte a banha e as cebolinhas inteiras. Regue com o restante vinho até que a carne se sinta abraçada. 

A Prova de Fogo será levar ao forno de lenha (ou forno convencional a 150ºC). Deixe cozinhar sem pressa, como quem espera o fim de uma invasão. São 3 a 4 horas de paciência. O vinho deve reduzir até se tornar um veludo escuro que envolve a carne, fazendo-a soltar-se do osso ao mínimo toque.

Chega a Comunhão, sirva com batata cozida "com a farda" (pele) e não se esqueça do pão de cornos para ensopar no molho que carrega a memória da terra.

Ao saborear, lembre-se que em Proença-a-Nova, nada se perde. Tudo se enterra para que possa, um dia, brilhar de novo.

Divirtam-se!



[Redação de inspiração, texto romantizado]

terça-feira, 3 de março de 2026

Um Morgado, um queijo de cabra




Nas entranhas da Beira Baixa, onde o tempo parece curvar-se perante a herança da terra, pulsa o coração da Casa do Morgado. Localizada na pitoresca aldeia Póvoa da Freguesia da Sobreira Formosa, esta queijaria não é apenas um local de produção; 
é um santuário de saber ancestral, onde o leite se transforma em poesia e cada queijo carrega a alma das pastagens serranas.
Recentemente, as paredes caiadas da Casa do Morgado testemunharam um encontro de paixões. 

Assim nós, o Provence com o entusiasmo da procura incessante por autenticidade e do sabor puro deixamo-nos envolver pela magia deste lugar. Foi uma hora sublinhada por emoção, pelo toque das mãos que moldam a tradição e pelo aroma inebriante do leite fresco de cabra, que ali é tratado com uma reverência quase sagrada.

Desta comunhão de afetos, nasce uma missão: levar o tesouro da Sobreira Formosa ao mundo. É com o coração cheio e os sentidos despertos que a equipa de "O Provence" leva os queijos frescos de cabra para a BTL 2026 considerando-os como um dos "Top 5" dos "sabores ao centro".

Estes queijos, que viajaram das mãos dos produtores diretamente para a grande montra do turismo, são mais do que um produto; são um pedaço de história, uma proclamação de resiliência e o sabor autêntico da Beira interior. Preparei-me para me apaixonar, porque em cada pedaço deste queijo fresco habita o espírito indomável desta terra.

Grata aos Produtores; Higino e seus país maravilhosos. [Breves melhoras do seu paizinho]


terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

A vida trocou-me as voltas ♡

 


Há um par de anos, mergulhei nas páginas de "O Meu Avô Luís". O meu foco era académico e analítico, tentava decifrar a forma como Sofia Pinto Coelho resgatava a memória, a justiça e a complexidade humana através da história do avô. Na altura, era para mim um objeto de estudo, uma voz distante mas fascinante entre capítulos e notas de rodapé.

Naquela noite, a vida trocou-me as voltas e o cenário mudou drasticamente. As mãos que antes folheavam o seu livro e tiravam notas sobre a narrativa, são as mesmas que preparam o jantar. Passar do estudo da obra à hospitalidade do serviço é um ciclo inesperado e gratificante. É o privilégio de servir alguém cujas palavras já me tinham "alimentado" o pensamento muito antes de eu saber que, um dia, seria eu a alimentar o seu serão.
A querida escritora explora a humanidade do avô, o juiz Luís Pinto Coelho, e há uma referência implícita àquilo que a mesa representava para ele, a dignidade e a sobrevivência.
 No livro, a Sofia Pinto Coelho escreve como o avô, mesmo nos momentos de maior isolamento político e pessoal, mantinha uma postura de extrema educação e ritual à mesa. Para ele, o ato de comer não era apenas nutrição, era um ato de resistência civilizada.
O Simbolismo do Pão [e, eu que sou de coisas cheias de simbolismo] numa passagem onde se reflete sobre a escassez e a forma como a família lidava com as dificuldades. Servir-lhe um jantar é, de certa forma, uma celebração da abundância e da liberdade que o avô tanto prezava, mas que lhe foi testada.

[E lá foi por whatsapp… No seu livro, senti que a mesa do seu avô era um lugar de verdade e rigor. Pergunto-me se estive à altura desse espírito de partilha que a Sofia tão bem descreveu.beijinhos ]



segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Na despensa da cortiçada


Na procura desenfreada do património imaterial gastronómico, encontro em frente ao meu restaurante o registo que me confirma e dá certezas. Ao Largo Dr Pedro da Fonseca  existe a Igreja Matriz de Proença-a-Nova,  onde fui beber a fé e o conhecimento. Sobre o porco, aparece como um elemento de adaptação; primeiro como recurso silvestre, depois como pilar da economia senhorial e, finalmente, como a alma da cozinha regional. Sem o porco, a demografia e a cultura da "Cortiçada" teriam sido radicalmente diferentes...


Historicamente, o concelho beneficiava de extensas áreas de mata e carvalhais, e assim o porco era criado em regime extensivo, alimentado de bolota, castanhas e restos agrícolas.
Durante a Idade Média, Proença-a-Nova (então Cortiçada) estava sob a jurisdição da Ordem do Hospital (mais tarde Ordem de Malta). Os forais impunham o pastoreio, demonstravasse que o porco era uma fonte de riqueza tributável e essencial para o sustento dos vassalos.

No século XVII, o porco consolidou-se como a principal reserva de proteína para as famílias rurais. Num território de solos por vezes pobres para a agricultura intensiva, o porco era o "banco" da família, investia-se nele o que a terra dava e colhia-se o sustento para todo o ano.

Mais tarde no  século XX, Proença-a-Nova diferenciou-se pela forma como se processava a carne de porco. Enquanto noutras regiões o foco era apenas o presunto ou o chouriço, aqui desenvolveu-se uma mestria única no aproveitamento integral do animal.

O Maranho e o plangaio surgem e consolidam-se em iguarias como os Maranhos (que, embora usem cabra ou ovelha, beneficiam da gordura e do suporte do porco) assim como o plangaio. A carne de porco torna-se a base de um receituário rico que define a gastronomia local.

Hoje, o porco deixou de ser apenas "comida" para ser um elemento do património imaterial.



terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Habeas Corpus na Cozinha

A Liberdade e o Respeito no Prato, leva-me a pensar no termo Habeas Corpus, do latim "que tenhas o teu corpo", é a salvaguarda máxima da liberdade individual no direito. Mas o que pode a cozinha, o templo dos sabores e dos afetos, ter a ver com este conceito jurídico de urgência e defesa?


​Proponho uma analogia, o Habeas Corpus na cozinha é a luta pela legitimidade do que se serve, o direito inalienável do comensal a uma refeição feita com responsabilidade, respeito pela matéria-prima, pela tradição, e pela verdade do sabor. É um brado contra a arbitrariedade, contra o engano, e contra a descaracterização do património alimentar. A Importância dos Sabores Tradicionais, estes sim,  são o nosso código genético alimentar. São a memória afetiva de gerações, forjada nas cozinhas regionais com o que a terra e o mar ofereciam. Eles constituem a identidade de um povo. O Habeas Corpus na gastronomia defende que essa identidade seja preservada.

​A responsabilidade do cozinheiro, o que tem o dever ético de conhecer e respeitar a origem e a sazonalidade dos ingredientes, evitando atalhos que comprometam a qualidade e o valor nutricional.

​Respeito pelo Comensal é servir comida genuína é um acto de respeito. É garantir que o que se anuncia é o que se entrega, sem adulterações ou simulações de sabor que "prendam" o palato numa ilusão.

​A luta é contra a banalização e a uniformização do gosto, muitas vezes imposta pela produção industrial ou pela busca desenfreada da novidade vazia. O sabor tradicional, quando bem executado, é o recurso mais precioso contra a amnésia gastronómica.


Fontes:

A minha própria vida, na cozinha têm muitos livros, mestres e professores.

Fontes Jurídicas (STJ - Supremo Tribunal de Justiça, Procuradoria-Geral Distrital do Porto





quarta-feira, 29 de outubro de 2025

A Alma da Beira Baixa em Pleno Coração de Lisboa, a terra que me viu nascer ♡

 

Que privilégio imenso e que responsabilidade sentida. Entre os dias 18 e 20 de outubro, tive a honra de levar os sabores autênticos da minha Beira Baixa à capital, no prestigiado evento "Grandes Escolhas | Vinhos & Sabores 2025", que encheu o Pavilhão 2 da FIL de aromas e paixões.

Fui na qualidade que tanto me orgulha: a de Embaixatriz da Beira Baixa, uma nomeação da CIMBB (Comunidade Intermunicipal da Beira Baixa) e do Turismo de Portugal, integrada neste projeto maravilhoso que é o "Sabores ao Centro".

A minha missão, neste showcooking beirão, era clara e fundamental: não se tratava apenas de cozinhar, mas de contar a história de um território através dos seus produtos. Como nos foi pedido, era essencial que cada prato, cada receita, tivesse uma ligação clara e representativa à nossa sub-região, reforçei a identidade e valorizei a riqueza da gastronomia.

E foi com essa alma que servi a Beira num prato.

Começámos com a terra, com o outono: um Arroz de Míscaros sublime, onde o conforto do arroz [a ponte gastronómica com o ribatejo" orivarzea- o carolino Bom sucesso]  abraçou o sabor inconfundível dos nossos cogumelos selvagens. Seguimos para a força da serra, com um Veado com Boletos, uma homenagem à caça e aos sabores silvestres que nos definem.

Claro que, ao falar das Beiras, não podiam faltar os ícones que nos unem. O Maranho da Sertã, com a sua personalidade única e sabor profundo, marcou presença, assim como a célebre Tigelada de Proença-a-Nova, a sobremesa que é, em si mesma, uma memória afetiva.

Para que esta viagem fosse completa, fomos acompanhados pelos vinhos certos: os grandes vinhos das Beiras e da Beira Interior. Quero destacar o Monte Barbo Branco Reserva, um vinho com estrutura e elegância, que não só harmonizou com os pratos, como se fez mostrar dentro da própria confeção do Arroz de Míscaros, onde dei provas da sua incrível versatilidade.

Num evento desta magnitude, o sucesso nunca é solitário. Todo o serviço foi agilizado de forma impecável graças ao "querido" António. Numa altura de tanta pressão, o António demonstrou ser não apenas um profissional excecional e um coordenador mui(to) competente, mas também de uma cordialidade que tornou todo o processo mais fácil e humano.

Saí da FIL de coração cheio. Sinto que cumpri o meu papel: mostrar que a Beira Baixa não é só paisagem; é sabor, é tradição e é futuro.


Desejos de vos rever,

com muito ânimo 




   



Restaurante: o Provence -Largo Dr Pedro da Fonseca n.º 3 6150-518 Proença a nova 

Sede: Rua Dr. Ant. augusto C. Lobato Golão 38 6060-189 Idanha a Nova
Quinta: Sitio de Monsantel, Estrada nacional 239 6060-088
Tel.: +351 96 366 4600

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Se eu fosse à Mesa com o Sr. O Dr. Mário Alberto Nobre Lopes Soares

 


Um Banquete de cultura nacional


Sentar-me e cozinhar para a mesa do ilustre Sr. Dr. Mário Soares seria, antes de tudo, uma viagem ao coração da cozinha tradicional portuguesa, uma celebração que convidaria a cultura social, política e gastronómica a falar delas próprias. Entre conversas de alta política, memórias de uma vida dedicada ao serviço público e reflexões profundas, a gastronomia surge como um elemento de união, de conforto e de identidade. E, nesta ocasião singular, o prato que se revelaria como verdadeira e predilecta do “antigo” Presidente é uma combinação de sabores que marcam o melhor da nossa herança culinária: um suculento bife de vaca, acompanhado de um puré de batata aveludado, complemento de uma deliciosa patanisca de cachaço de bacalhau e, para terminar, uma irresistível tigelada das Beiras.


Comecemos pelo bife de vaca. A carne, escolhida com requinte, reflete a simplicidade e a robustez do campo português. Cozinhada na perfeição,, em frigideira, macia e suculenta, com um toque de gordura que se desfez na boca, deixando transparecer o carinho com que foi preparada. Para o Sr. Doutor Mário Soares, a carne era mais do que alimento: era um símbolo de autenticidade, de raízes profundas numa terra que valoriza o trabalho árduo e a honestidade. Com um pouco de sal grosso, pimenta e um fio de azeite virgem, o bife ganha uma dimensão quase poética, sugeria as tradições ancestrais que moldaram o carácter do povo português.

No lado, encontrava-se um puré de batata que, por si só, é uma obra-prima de suavidade e conforto. Feito com batatas bem cozidas, amassadas com manteiga e um toque de leite, o puré de batata é o abraço quente que acalma a alma, um convite à nostalgia. Para o ex-Governante, este prato representaria as raízes simples e genuínas do nosso quotidiano, um símbolo de harmonia entre o sabor e a tradição. A textura cremosa e o sabor delicado tornam o acompanhamento perfeito, elevando ainda mais o prato principal.

Não poderia faltar a patanisca de cachaço de bacalhau, uma verdadeira delícia que combina tradição e a doméstica. O bacalhau, fervido suave e lentamente, é lascado e envolvido num polme delicado e crocante que se derrete na boca. A patanisca representa uma das muitas formas de aproveitar o bacalhau, mais do que um alimento, é uma lenda viva na gastronomia portuguesa. Para o Sr. Dr., esta iguaria seria uma homenagem às raízes costeiras do país, uma lembrança das manhãs ao som do mar e do cenário tradicionalista da arte.

Por fim, a tigelada das Beiras, sobremesa que conquistaria o seu coração. Feita com ovos, mel e canela, assada numa tigela de barro, ela é uma verdadeira explosão de sabor e tradição. De textura macia, quase cremosa, e o aroma intenso de canela remetem-nos para as memórias das festas de aldeia, das tardes ao calor do lar, e do sentimento de pertença que a cozinha tradicional sempre proporcionou. Permito-me dizer que para o Sr. Dr. Soares, a tigelada era mais do que uma sobremesa: era uma doce homenagem às raízes profundas do interior do país, uma saborosa recordação do Portugal mais genuíno, Proença-a-Nova.

Naquelas horas à mesa, entre pratos de sabores autênticos e conversas de alma, percebi que a gastronomia, para este Presidente, era uma forma de preservar a identidade, de fortalecer laços e de celebrar a vida. Cada ingrediente, cada receita, fiz-lhe uma história que ultrapassava o simples acto de comer, era uma herança, um património que se repassaria de geração em geração.

Ora, nesta mesa com o Sr. Dr. Mário Soares, o que se partilhou era o testemunho de amor pelo país, pela cultura e pelas tradições. E, entre um bife de vaca bem temperado, um puré de batata aveludado, uma patanisca de bacalhau crocante e uma tigelada das Beiras que aqueceu a alma, ficava a certeza de que, na simplicidade dos sabores, reside toda a essência de Portugal.



Fontes:


"A Cozinha Tradicional Portuguesa" de Maria de Lourdes Modesto

História e Biografia de Mário Soares "Mário Soares: A História de uma Vida" de João Gonçalves 

 "Mário Soares Biografia" de Maria João Seabra

Gastronomia Regional das Beiras

JORNAL EXPRESSO


quinta-feira, 11 de setembro de 2025

Casa da avó -Proença a Nova

 Prezados comensais,



Sintam o abraço quente de uma casa que vos recebe de braços abertos. No dia 17 de setembro, a Casa da Avó abre as suas portas para vos convidar a uma experiência única, onde a comida é mais do que um prato: é uma memória, um conforto, um carinho.

Aqui, o tempo abranda para vos oferecer um refúgio do corre-corre do dia a dia. De quarta a sexta-feira, entre as 12h e as 14h, servimos pratos frescos, confeccionados com a tradição e o amor que só a comida da avó tem. Cada colherada é um regresso ao sabor da memória, aos temperos de antigamente e à alegria de estar à mesa.

O nosso menu, pensado para ser acessível a todos, custa 13€ (IVA incluído) por pessoa e promete ser uma viagem de sabores autênticos.

Venham a esta casa. Venham à Casa da Avó. A vossa mesa está à espera, pronta para vos aquecer o coração e a alma.

A casa da avó é a pausa perfeita para o vosso almoço.










Restaurante: o Provence -Largo Dr Pedro da Fonseca n.º 3 6150-518 Proença a nova 

quarta-feira, 23 de julho de 2025

Bem comer, bem beber e bem estar!♡

 



Desde sempre, a minha alma se deixou envolver por um amor profundo pela culinária. Para mim, cozinhar não é apenas preparar alimentos, é uma forma de contar histórias, de criar memórias e de conectar pessoas através de sabores que falam ao coração. Foi este amor que me levou a sonhar com um espaço especial, um refúgio onde o encanto e a autenticidade se encontrassem numa mesa cheia de emoções e cuidado: nasceu assim o Provence, em Proença-a-Nova.

Cada prato que crio é uma viagem, uma pesquisa constante pela perfeição, pela harmonia entre ingredientes e tradições. Não quero apenas servir comida, quero oferecer momentos de descoberta, de prazer e de nostalgia. A minha investigação para a carta é um caminho que mistura a essência da cozinha mediterrânea com influências históricas, onde as Ordens Hospitalares, Militares Napoleónicas e religiosas aparecem muitas vezes no dia a dia das minhas criações. São histórias que se entrelaçam com o meu amor pela história e pela cultura, dando vida a pratos que carregam memória, fé e coragem.

No Provence, cada detalhe foi pensado para que os nossos clientes sintam o calor de um lar, o encanto de uma tradição bem preservada, e a magia de uma experiência gastronómica única. Aqui, a paixão pela culinária é o motor de tudo, e cada visita é uma oportunidade de partilhar o meu mundo, de oferecer um pedaço de mim através de sabores que despertam emoções. 

Sou a Cheffe Maria Caldeira de Sousa, e o meu maior desejo é que cada pessoa que passe pela nossa porta sinta o amor, a dedicação e a história que estão em cada prato. Porque, para mim, abrir este espaço foi mais do que um sonho realizado, foi uma entrega de alma, uma celebração da vida, do património e cultura que nos faz únicos.

Eu não estou sozinha, já somos alguns para equipe ♡ 

quinta-feira, 10 de julho de 2025

Eram 6 da manhã na Vagueira

 





Ao mar, embarco no que transporta redes, entregando-as ao silêncio das águas.

O rasgar do motor corta a quietude, enquanto os homens, em entrega silenciosa, deixam a alma com o oceano. 

Redes que caem ao mar, seguras por mãos vãs que guardam segredos profundos. No largo, o mestre revela ao templo tudo o que a volta de Deus orienta. Na carga das redes, carregadas de dúvida. A arte do Mestre Alberto é xavega , acolhe a minha alma ou talvez todo o corpo. 

Sinto o desejo de retornar, ao mar, à paz, ao mistério que só o mar conhece.

Gratidão pela a alegria que trago comigo ♡






observei-os fascinada no laboratório escuro.

  Sob as oliveiras centenárias de Monsanto, onde as pedras parecem guardar os segredos do início do mundo, o tempo parou.  Não sou apenas a ...