Dentro de mim, alva ternura,
Um avental bordado com sonhos,
A primeira memória, doce e pura,
Ignorância vestida de mil trunfos.
Aos quatro anos, talhei o futuro,
Mãos pequenas em cozinhas de fogo,
Lágrimas em cebolas, risos no apuro,
Nos aromas da vida, mergulhei num jogo.
Cozinhas entre vinhas e em céu estrelado.
Farinha e vinagre vão ensinar o pão daquele lugar, o meu brincar.
Os ecos da avó que chamava por mim… Zé, oh Zé!
Guiada com coração,
Com alho e cebola, temperos da alma,
Mistério e sabor em cada refeição,
Entre pratos e garfos a vida acalma.
Levo nos braços a herança do talho e da casa de pasto,
O calor do lar, o aconchego de esquecer,
O cheiro a bifes com cerveja,
Num pai ausente.
Nas panelas, dançam as cores eternas,
Com cada prato, uma história a tecer.
Sussurros de amantes, riso chorados de crianças,
O cheiro do pão que anuncia o lar,
Cada receita, tecidos de esperanças,
A cozinheira em mim nunca deixa de amar, mãe.
Mãe, minha mestre.
Doce e salgada, a vida que eu assino,
Entre ingredientes, a essência nua.
Sou eu e eu mesma, num labirinto divino, a cozinheira que não se afronta.
Preparo os pratos da vida,
Com fervor, temperos de emoção na tradição,
A memória que é sempre bem-vinda,
Sou a chefe e a receita da minha canção.


