terça-feira, 21 de janeiro de 2025

Chefe Maria Caldeira de Sousa



Dentro de mim, alva ternura,  

Um avental bordado com sonhos,  

A primeira memória, doce e pura,  

Ignorância vestida de mil trunfos.  


Aos quatro anos, talhei o futuro,  

Mãos pequenas em cozinhas de fogo,  

Lágrimas em cebolas, risos no apuro,  

Nos aromas da vida, mergulhei num jogo.  

Cozinhas entre vinhas e em céu estrelado.

Farinha e vinagre vão ensinar o pão daquele lugar, o meu brincar.


Os ecos da avó que chamava por mim… Zé, oh Zé!

Guiada com coração,  

Com alho e cebola, temperos da alma,  

Mistério e sabor em cada refeição,  

Entre pratos e garfos a vida acalma.  


Levo nos braços a herança do talho e da casa de pasto,  

O calor do lar, o aconchego de esquecer,  

O cheiro a bifes com cerveja,

Num pai ausente.

Nas panelas, dançam as cores eternas,  

Com cada prato, uma história a tecer.  


Sussurros de amantes, riso chorados de crianças,  

O cheiro do pão que anuncia o lar,  

Cada receita, tecidos de esperanças,  

A cozinheira em mim nunca deixa de amar, mãe.  

Mãe, minha mestre.

Doce e salgada, a vida que eu assino,  

Entre ingredientes, a essência nua.  

Sou eu e eu mesma, num labirinto divino, a cozinheira que não se afronta.  


Preparo os pratos da vida,  

Com fervor, temperos de emoção na tradição,  

A memória que é sempre bem-vinda,  

Sou a chefe e a receita da minha canção.  



sábado, 11 de janeiro de 2025

A panela da sopa



A panela dá vida, ferve sopa.

Uma sopa de sonho, de amor e paciência;  

Dizem resiliência.

Desapego á raiva e junta abóbora,  

Adia a brutalidade e, 

acrescenta o feijão, á paixão.  

Entregoa, tudo que és,  

Das sobras da luta, do que o mundo me dá 

Miséria e loucura dançam no ar,  

Mas e a alma?

 Não se farta?

Procura na rua sem dor, o trago da sombra,  

Mas na mistura o odor da esperança não se esconde.

Quebra as correntes, mistura as cores,  

Num prato de amor, aquecemos as dores.  

Apoiamos os cheiros.

E assim, no fervor, ouvimos a chama do afeto,  

Fazemos da sopa, um poema completo;  

Que a pobreza não apague o que brilha em nós,  

Pois somos tesouros, e o amor é a voz.



segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Epifania e o Ouro de Sabá

 



Que seja um feliz e bonito dia de Reis!


Através dos tempos, somos transportados para as margens do Mediterrâneo, onde o aroma das especiarias se entrelaçam com o som das ondas e o sussurro dos ventos do deserto. Este era um mundo onde as especiarias não eram meros temperos culinários, mas sim tesouros de valor inestimável, carregados de simbolismo, poder e luxo. 

As Caravanas do Passado

Imaginemos as caravanas que cruzavam as vastas extensões de areia, carregavam preciosas mercadorias oriundas do Oriente. Entre os relatos bíblicos, encontramos a história de José, filho de Jacob, vendido por seus irmãos a mercadores de especiarias por 20 moedas de prata em 1729 a.C. Estes mercadores, com suas carripanas, não apenas transportavam bens, mas também culturas, histórias e aromas que moldavam civilizações.

 A Rainha de Sabá e o Rei Salomão

O ano era 999 a.C., e Jerusalém estava prestes a testemunhar uma visita de esplendor sem igual. A Rainha de Sabá, uma figura envolta em mistério e majestade, viajava para encontrar o sábio Rei Salomão. A sua chegada não era apenas uma demonstração de diplomacia, mas um espetáculo de riqueza e opulência. Carregada de pedras preciosas e especiarias, a Rainha de Sabá simbolizava o poder e a sedução das terras distantes. As especiarias que trazia eram mais do que presentes; eram símbolos de status e poder, capazes de transformar o comum em sublime.

Especiarias e o Ritual de Embalsamamento

Nenhuma civilização compreendeu tão bem o poder das especiarias como o Egito antigo. Utilizadas em práticas de embalsamamento, essas substâncias aromáticas desempenhavam um papel crucial na preservação dos corpos para a vida após a morte. As especiarias, como mirra e canela, não apenas retardam a decomposição, mas também conferiam dignidade e respeito aos mortos. Os egípcios acreditavam que o aroma das especiarias guiaria a alma no seu caminho, uma epifania que transcendia o tempo e o espaço.

O Legado das Especiarias

Ao longo dos séculos, as especiarias continuaram a ser um elo entre o Oriente e o Ocidente, um símbolo de poder e um motor do comércio. Nas margens do Mediterrâneo, eram negociadas a preços exorbitantes, acessíveis apenas aos mais ricos e poderosos. Inspiraram conquistas, moldaram economias e criaram rotas comerciais que influenciaram a história da humanidade.

A Despensa Encantada de Joana de Évreux

A despensa de Joana de Évreux, a devotada viúva do Rei Carlos, o Belo, era um verdadeiro cofre de maravilhas, um testemunho vibrante do esplendor e da sofisticação da corte francesa entre 1321 e 1328. Neste espaço mágico, as paredes eram adornadas por prateleiras repletas de exóticas especiarias vindas das terras mais distantes, cada uma contava a história de viagem e descoberta. O ar era perfumado com o aroma inebriante de cravo, canela e noz-moscada, transportava aqueles que ali entravam para mundos desconhecidos e fascinantes. Este tesouro culinário não só refletia a opulência da corte, mas também o amor de Joana pela arte de cozinhar e encantar os seus convidados com pratos que eram verdadeiras experiências sensoriais. A despensa, mais do que um simples espaço de armazenamento, era um santuário de cultura e tradição, um legado aromático que perpetuava a memória de um tempo de esplendor real.

A epifania das especiarias e o ouro de Sabá não são apenas lembranças de um tempo remoto, mas uma celebração do espírito humano e sua busca incessante por beleza, poder e transcendência. Em cada grão de especiaria, há uma história, uma memória, um pedaço do passado que ressoa até os dias de hoje.

MCS .'.



domingo, 5 de janeiro de 2025

Epílogo de 5 Momentos na Cozinha

E nisto, fui ao cooking e voltei ♡ 

No desfile de ingredientes que compõe o "Epílogo de 5 momentos na cozinha", o pernil de peru assume o papel principal, recheado com chouriço, frutos secos e charlotte, uma combinação que exala aromas irresistíveis. Este prato foi cuidadosamente enrolado em papel vegetal e assado em forno forte, aqui as raspas de lima e o alecrim acrescentam um toque refrescante e da terra, elevando o palato a uma experiência sensorial memorável. Ao lado, um puré que harmoniza duas variedades de abóbora — a hokaido de textura aveludada e a menina que  estimula a doçura, juntamos a doce batata e o marmelo, premiando a acidez e cremosidade — tudo é enriquecido com manteiga e especiarias ricas que remontam desde a Rainha Sabá até aos tributos do século XVI, convencida da história à mesa. 

Para complementar, a salada Waldorf ganha nova vida com a adição de couve roxa e aipo, cuja crocância contrasta perfeitamente com a cremosidade dos demais pratos. A sobremesa não deixa por menos, a rabanada magistral emerge como uma obra-prima, embebida em calda de vinho branco e coroada com um creme de ovo doce perfumado com tangerina, uma reverência à tradição com um toque de perfeição. 

Para finalizar, os cocktails da noite são uma festa em si. O primeiro, uma fusão de romã vibrante, hortelã fresca e zimbro, é elevado pela efervescência de um vinho gaseificado, refrescante e inesperado. Já o segundo cocktail, uma mistura de maçã com casca de tangerina, cardamomo e um glacê de maçã canela com açúcar e sal, oferece um equilíbrio perfeito entre o doce e o salgado e, encerra a refeição com maestria. Cada momento desta cozinha gastronómica é uma celebração dos amigos da Conceição e alerta todos sentidos numa dança harmoniosa entre o passado e o presente, que encanta e emociona.



Brindamos assim a aniversário e aos mais de 30 anos de amizade neste grupo.

Viva, viva,viva.

observei-os fascinada no laboratório escuro.

  Sob as oliveiras centenárias de Monsanto, onde as pedras parecem guardar os segredos do início do mundo, o tempo parou.  Não sou apenas a ...