terça-feira, 11 de junho de 2024

Comensalidade com alma

 Numa cozinha pitoresca e ensolarada no coração de Lisboa, de onde me mudei há 9 anos, a minha cidade natal, dizem-me que sou conhecida pela minha extraordinária capacidade de entrelaçar sabores e histórias. A esta dedicação da defesa da literacia e da gastronomia emocional, desta vez elevei a fasquia, nas obras de Agostinho da Silva, um filósofo português, e de Carl Jung, o psiquiatra suíço, na criação duma experiência culinária que não foi apenas um banquete para as papilas gustativas, mas também uma viagem de autodescoberta. 

O cheiro já se sentia naquele lugar, passava os céus! 





Ao entrarem na cozinha, o aroma de beterraba salteada com cebolinha nova em gengibre e manteiga pairava no ar, atormentava assim os sentidos dos convivas. Com o meu ar sereno e alegre, cumprimento calorosamente cada um e convido sentar à mesa. Dou início com a última criação, num dos pratos inspirados nas obras de Agostinho da Silva e Carl Jung. -O repasto que preparei para vós chamo-lhe: ''A Busca pelo Inconsciente Coletivo'' explico; - esta é a narrativa culinária que vos coloca num caminho de autodescoberta, assim como os filósofos e ou escritores, ou mesmo ilustres gourmands que me inspiram.


O consomé delicado é feito com beterraba, gengibre e um toque de cardamomo. Ainda bebíamos o caldo quente, já eu aguçava os convivas com histórias das reflexões filosóficas de Agostinho da Silva sobre a condição humana, revelo,as  ideias e análises sobre a interconexão de todas as coisas e a importancia de abraçar a individualidade. Em brinde erguem-se copos com D.Sancho I, um rosé fresco e aveludado e com um aroma frutado primaveril que restaura o bem-estar.

Em conchas de castanha assada que saltitam intercalados com figos frescos tenros pedaços de cordeiro cozidos em redução de vinho tinto, cebolinha, pimenta branca e xarope de sabugueiro. Neste momento de boa disposição une-se o sabor ao conceito de consciente coletivo e como ele se relaciona nas experiências humanas em partilha. Relaciono as experiências individuais com ligação à psique coletiva e como o palato nos despe a memória sobre as nossas próprias vidas. À medida que saboreamos cada colherada, as histórias sobre a vida dos filósofos na tradição e nos costumes pulam entre lutas e triunfos. Mostro como ambos me inspiraram no ambiente e uso as suas experiências para moldar ideias. Decidi que para o final seria uma mousse de avelã bem fofa e leve com água de rosas e doce de flor de laranjeira gelado. Enquanto nos deliciamos com esta rica sobremesa, permito que a Chefe Maria Caldeira de Sousa pule para a mesa e cheia de emoção defenda o poder da imaginação e da criatividade nas cozinhas e ultrapassarmos os limites da culinária e o seu formato.


Ao terminar o repasto,convidei os comensais a juntar-nos num momento de contemplação, o Rio Tejo estava ali, aproveitei  para refletir sobre os meus próprios passos de autodescoberta e na forma que me  inspiraram para das obras conhecidas resultar em comida para a alma. Partilhamos histórias das nossas próprias experiências e, sorri com conhecimento de causa, consciente de que todos tínhamos sido tocados pelo poder das minhas criações [pelo menos de barriguinha cheia estavamos]. Ao sair da cozinha, sentimo-nos nutridos não só pela comida deliciosa, mas também pela sabedoria e inspiração que partilhei com os convivas. Certos que recebíamos as lições de Agostinho da Silva e Carl Jung, utilizando-as para navegar nos caminhos individuais e crescimento num todo. 

E nisto, queridos comensais, convido-vos a juntarem-se a mim nestas viagens culinárias, inspirada nas obras literárias de grandes filósofos, médicos, taberneiros entre outros. Vamos saborear cada mordida em cada pedaço de vida, tornar cada sentido como catalisador de crescimento. 

Divirtam-se!





quarta-feira, 5 de junho de 2024

Repastos Filosóficos

 Aqui,  traço um momento que combinei no mundo das artes culinárias, da filosofia e da literatura, ambientado na atmosfera encantadora de uma antiga casa de comer, aquela que trago nos meus sonhos. 


Era uma noite fresca de primavera em Monsantel, e a aconchegante casa de comer , "A casa da velha Fonte", fervilhava com o aroma de bicas de azeite recém-assadas e o suave zumbido das conversas. A chef Maria, uma mulher apaixonada, de espírito fogoso e de gosto pela literatura, preparou um cardápio especial para aquela noite.


O tema foi inspirado nas obras de Albert Camus e Franz Kafka, dois gigantes da literatura do século XX. Quando os convidados chegaram, foram recebidos com um sorriso caloroso pela própria Chef Maria Caldeira de Sousa. Recebeu-os em modo “repastos Filosóficos”, onde embarcavam numa viagem culinária inspirada pelas obras destes dois mestres literários. O cardápio refletia os seus estilos de escrita, com pratos instigantes e deliciosos. O primeiro prato foi um amuse-bouche "kafkiano", uma delicada dose de sopa cremosa de espargos servida em chavenas de café. A sopa foi infundida com essência de limão e salsa, lembrando o mundo brilhante, mas perturbador, que Kafka retratou com tanta mestria nas suas histórias.

Enquanto os convidados saboreavam a sopa, a Chef Maria Caldeira de Sousa ocupou o lugar à cabeceira da mesa, com uma taça de um bom Rufete na mão. Começou a falar sobre o conceito de “absurdismo” de Camus, sobre como as vidas estão cheias de incerteza e caos, mas que deveriamos procurar novas formas de dar sentido a todos estes aspectos negativos. O prato principal foi uma bouillabaisse "Camusiana", uma farta caldeirada de peixe de rio originária da barragem da aldeia ao lado, Penha Garcia. O prato era rico e saboroso, com pedaços de peixe a nadar num caldo aveludado. Aqui a chefe fala-nos sobre a filosofia de Camus de “viver a vida ao máximo”, como devemos correr riscos e enfrentar nossos medos para realmente vivenciar a vida.

Ao terminarem a refeição, os convidados foram presenteados com um prato de sobremesa decadente, inspirado no mundo surreal e onírico de Kafka. Um bolo de chocolate negro "kafkiano", com ganache de sabor a amendoa torrada e cobertura crocante de praliné de amora, apanhada da árvore anciã junto a casa, foi servido junto com um rico licor de romã, feito pelo seu marido. A combinação foi sublime, muito parecida com a capacidade de Kafka de entrelaçar elementos aparentemente díspares nas suas narrativas assombrosas. À medida que a noite chega ao fim, a Chef Maria pedia aos convidados que refletissem sobre o seu repasto. 


  • Qual a sua percepção entre Camus e Kafka que foram influenciadas pelo repasto que comeram? 

  • O que pensavam sobre os temas do absurdo e do existencialismo?


 A conversa foi animada e envolvente, entre os convivas, compartilhou-se idéias e percepções. Ao diexarem o espaço  da Casa da velha Fonte, cada comensal levou consigo não apenas a barriga cheia, mas também uma nova apreciação pelo poder da literatura para inspirar e moldar a compreensão do mundo. E nisto, o “repasto Filosófico” da Chefe e cozinheira Maria, torna-se inspiração em Monsantel, seduzindo tanto gourmets como amantes da literatura. Porque no mundo das artes culinárias, como no mundo da literatura, não há alegria maior do que partilhar boa comida e bons momentos durante a comensalidade.



segunda-feira, 3 de junho de 2024

Onde?

 





Hoje sou a pessoa que fui  

Hoje sou a pessoa que fui

As cinzas do passado não me rodeiam

O tempo trouxe dor e chuva levou

E eu, uma mariposa, em voo


O meu coração sem forma

A minha mente, um labirinto 

As memórias de outrora não me assombram

E eu, em luz faço sombra


Quem sou eu, hoje?


 Uma criança que se encontra

 Num mundo adulto

Na direção, no propósito

Uma gota de água que brilha 

Onde? 

sinto a luz que brilha lá dentro

A luz que me guia as asas para voar

A luz que me recorda quem eu sou

A luz que me faz querer mais


Hoje eu sou a pessoa que fui

Mas eu sinto no verbo de ser novamente

De ser a pessoa que sonha e cria

De ser a pessoa que sorri e ama.


In Maria Caldeira de Sousa

observei-os fascinada no laboratório escuro.

  Sob as oliveiras centenárias de Monsanto, onde as pedras parecem guardar os segredos do início do mundo, o tempo parou.  Não sou apenas a ...