Numa cozinha pitoresca e ensolarada no coração de Lisboa, de onde me mudei há 9 anos, a minha cidade natal, dizem-me que sou conhecida pela minha extraordinária capacidade de entrelaçar sabores e histórias. A esta dedicação da defesa da literacia e da gastronomia emocional, desta vez elevei a fasquia, nas obras de Agostinho da Silva, um filósofo português, e de Carl Jung, o psiquiatra suíço, na criação duma experiência culinária que não foi apenas um banquete para as papilas gustativas, mas também uma viagem de autodescoberta.
O cheiro já se sentia naquele lugar, passava os céus!
Ao entrarem na cozinha, o aroma de beterraba salteada com cebolinha nova em gengibre e manteiga pairava no ar, atormentava assim os sentidos dos convivas. Com o meu ar sereno e alegre, cumprimento calorosamente cada um e convido sentar à mesa. Dou início com a última criação, num dos pratos inspirados nas obras de Agostinho da Silva e Carl Jung. -O repasto que preparei para vós chamo-lhe: ''A Busca pelo Inconsciente Coletivo'' explico; - esta é a narrativa culinária que vos coloca num caminho de autodescoberta, assim como os filósofos e ou escritores, ou mesmo ilustres gourmands que me inspiram.

O consomé delicado é feito com beterraba, gengibre e um toque de cardamomo. Ainda bebíamos o caldo quente, já eu aguçava os convivas com histórias das reflexões filosóficas de Agostinho da Silva sobre a condição humana, revelo,as ideias e análises sobre a interconexão de todas as coisas e a importancia de abraçar a individualidade. Em brinde erguem-se copos com D.Sancho I, um rosé fresco e aveludado e com um aroma frutado primaveril que restaura o bem-estar.
Em conchas de castanha assada que saltitam intercalados com figos frescos tenros pedaços de cordeiro cozidos em redução de vinho tinto, cebolinha, pimenta branca e xarope de sabugueiro. Neste momento de boa disposição une-se o sabor ao conceito de consciente coletivo e como ele se relaciona nas experiências humanas em partilha. Relaciono as experiências individuais com ligação à psique coletiva e como o palato nos despe a memória sobre as nossas próprias vidas. À medida que saboreamos cada colherada, as histórias sobre a vida dos filósofos na tradição e nos costumes pulam entre lutas e triunfos. Mostro como ambos me inspiraram no ambiente e uso as suas experiências para moldar ideias. Decidi que para o final seria uma mousse de avelã bem fofa e leve com água de rosas e doce de flor de laranjeira gelado. Enquanto nos deliciamos com esta rica sobremesa, permito que a Chefe Maria Caldeira de Sousa pule para a mesa e cheia de emoção defenda o poder da imaginação e da criatividade nas cozinhas e ultrapassarmos os limites da culinária e o seu formato.
Ao terminar o repasto,convidei os comensais a juntar-nos num momento de contemplação, o Rio Tejo estava ali, aproveitei para refletir sobre os meus próprios passos de autodescoberta e na forma que me inspiraram para das obras conhecidas resultar em comida para a alma. Partilhamos histórias das nossas próprias experiências e, sorri com conhecimento de causa, consciente de que todos tínhamos sido tocados pelo poder das minhas criações [pelo menos de barriguinha cheia estavamos]. Ao sair da cozinha, sentimo-nos nutridos não só pela comida deliciosa, mas também pela sabedoria e inspiração que partilhei com os convivas. Certos que recebíamos as lições de Agostinho da Silva e Carl Jung, utilizando-as para navegar nos caminhos individuais e crescimento num todo.
E nisto, queridos comensais, convido-vos a juntarem-se a mim nestas viagens culinárias, inspirada nas obras literárias de grandes filósofos, médicos, taberneiros entre outros. Vamos saborear cada mordida em cada pedaço de vida, tornar cada sentido como catalisador de crescimento.
Divirtam-se!



