Plutarco, Gastronomia e a Arte de Transformar o Amargo em Proveito
Há textos antigos que nos chegam como se tivessem sido escritos ontem. O tratado de Plutarco conhecido como “Como Tirar Proveito dos Seus Inimigos” é um desses casos. À primeira vista, parece tratar apenas de moral, rivalidades e vida pública. Mas, quanto mais o leio, mais me parece que ele fala também de cozinha. Ou melhor: fala daquilo que a cozinha sempre soube fazer, transformar o que é difícil, áspero ou resistente em matéria de proveito.
A página que me levou de novo a este texto apresenta-o em português, associado aos Moralia, conjunto de escritos em que Plutarco pensa a educação, a virtude, o carácter e a forma como devemos conduzir-nos diante dos outros.A pergunta que atravessa o tratado é simples, mas desconfortável: que fazer com os nossos inimigos? Plutarco não nos propõe uma fantasia de vida sem conflito. Ele sabe que ninguém atravessa o mundo sem encontrar invejas, censuras, maledicências ou rivalidades. A questão, para ele, é outra: podemos retirar algum proveito moral daquilo que nos contraria?
Esta pergunta interessa-me particularmente quando a coloco à mesa. A gastronomia começa precisamente onde a natureza ainda não está pronta para nós. O cru pede lume, o sal pede medida, o amargo pede equilíbrio, a acidez pede companhia. Cozinhar é uma arte de transformação. Nada garante, à partida, que um ingrediente difícil se torne bom; é preciso técnica, paciência, atenção e mão. Com a vida passa-se o mesmo. Nem toda a crítica é justa, nem todo o adversário é nobre, nem toda a rivalidade nos eleva. Mas quase tudo pode ensinar alguma coisa, se não permitirmos que o ressentimento tome conta da receita.
O inimigo, em Plutarco, torna-se útil não porque deixe de ser inimigo, mas porque obriga quem pensa a vigiar-se, corrigir-se e dominar-se.
O que me fascina nesta leitura é que Plutarco não nos convida a gostar dos inimigos, nem a justificar a sua maldade. Convida-nos antes a não desperdiçar o que a adversidade revela. Há aqui uma espécie de culinária interior: transformar a censura em exame, a rivalidade em exigência, a ofensa em autodomínio, o desconforto em lucidez.
Plutarco parte de uma constatação realista: é quase impossível viver sem inimigos. Podemos não os procurar, mas eles aparecem. Surgem na vida pública, no trabalho, na vizinhança, na família, na criação artística, na cozinha, na escrita e até na forma como cada um defende a sua memória. O problema não está apenas em evitá-los. Está em impedir que eles ditem o sabor da nossa vida.
Uma das imagens mais fortes do tratado surge quando Plutarco recorda os animais selvagens. Os homens antigos, diz ele, contentavam-se em escapar às feras; os seus sucessores, porém, aprenderam a retirar delas alimento, abrigo, medicamentos e materiais úteis. Esta passagem parece-me decisiva. Plutarco não nega o perigo da fera. Não romantiza a ameaça. Mostra antes que a civilização começa quando o medo se transforma em técnica.
A cozinha nasce de um gesto semelhante. O fogo é perigoso, mas cozinha. O sal é agressivo, mas conserva e revela. O vinagre é ácido, mas corta a gordura e desperta o prato. A faca fere, mas também prepara. O inimigo, pensado por Plutarco, pertence a esta família dos elementos difíceis: não deve ser servido cru, nem engolido sem critério, nem deixado a comandar a mesa. Deve ser trabalhado pela razão. É por isso que gosto de pensar neste tratado como uma lição de cozinha moral. O inimigo não é alimento por natureza; torna-se ocasião de alimento quando o transformamos em conhecimento de nós próprios. Uma crítica maldosa pode conter um fragmento de verdade. Uma rivalidade pode expor a nossa preguiça. Uma acusação injusta pode obrigar-nos a clarificar a nossa conduta. Uma inveja recebida pode ensinar-nos a não invejar.
Há uma ideia em Plutarco que me parece especialmente atual: o inimigo observa aquilo que o amigo, por afeto, talvez não diga. O amigo protege, desculpa, suaviza. O inimigo repara, exagera, denuncia. A sua intenção pode ser má, mas a sua observação nem sempre é inútil.
A crítica é como o sal. Ninguém se alimenta de sal puro; em excesso, ele estraga qualquer prato. Mas sem sal, muitos sabores ficam apagados. O sal não inventa o alimento, mas revela-lhe a estrutura. A crítica, quando recebida com discernimento, pode cumprir função parecida. Não devemos viver dependentes dela, nem entregar a nossa autoestima a quem nos quer diminuir. Mas também não precisamos de rejeitar automaticamente tudo o que vem de uma boca hostil. Esta é uma lição muito gastronómica. Uma cozinha constrói-se sob julgamento. Há sempre alguém a comparar a nossa receita com a da mãe, da avó, da terra vizinha, da casa antiga, do restaurante preferido. Há sempre alguém que acha o caldo ralo, o arroz passado, o peixe seco, o pão pesado, o tempero tímido ou excessivo. Muito desse julgamento pode ser injusto. Mas, por vezes, é ele que nos obriga a apurar o gesto. A crítica torna-se destrutiva quando nos fecha. Torna-se útil quando nos afina. Talvez seja essa a grande diferença entre ressentimento e sabedoria: o ressentimento fica preso à intenção do outro; a sabedoria pergunta se há ali alguma coisa que possa melhorar a nossa prática.
A ligação entre Plutarco e a gastronomia torna-se ainda mais clara quando pensamos no banquete antigo. O simpósio grego não era apenas um momento para beber e comer. Segundo o Departamento de Estudos Clássicos da Universidade, era uma reunião ritualizada em que homens aristocráticos bebiam, conversavam, recitavam poesia, exibiam cultura e negociavam estatuto social. O vinho era misturado com água em proporções determinadas para preservar a compostura e o autocontrolo, valores muito presentes na literatura antiga sobre o simpósio. Esta imagem agrada-me muito: o vinho precisa de água para não dominar completamente a razão. Há nela uma sabedoria que ultrapassa o costume antigo. A vida também precisa de mistura. A ira precisa de medida. A crítica precisa de distância. O prazer precisa de forma. A rivalidade precisa de ética. Um estudo sobre o banquete greco-romano define-o como uma instituição social complexa e influente, muito mais do que uma simples refeição. E é isso mesmo que a mesa continua a ser. À mesa revelam-se hierarquias, vaidades, impaciências, generosidades, rivalidades e silêncios. A mesa mostra quem serve, quem espera, quem domina a conversa, quem sabe escutar, quem partilha, quem exagera, quem transforma a refeição num palco e quem faz dela hospitalidade. Plutarco escreve sobre inimigos, mas o banquete mostra como a inimizade pode nascer ou ser contida no convívio. Uma palavra mal medida fere. Um excesso de vinho solta aquilo que devia ter ficado em silêncio. Uma comparação entre cozinheiros acende vaidades. Uma precedência à mesa humilha. Mas a mesma mesa também pode educar. Ensina proporção, espera, atenção ao outro, cuidado com o ritmo, consciência do gesto. Misturar o vinho com água é, talvez, uma das melhores imagens para ler Plutarco. Não se trata de negar a força do vinho, mas de lhe dar medida. Não se trata de fingir que o inimigo não existe, mas de impedir que ele nos embriague a alma.
A investigação contemporânea sobre alimentação antiga ajuda-nos a perceber que a comida nunca foi apenas comida. A Prof. Doutora Carmen Soares tem desenvolvido trabalho importante sobre história da alimentação, gastronomia antiga e patrimónios alimentares, mostrando como a mesa é também memória, cultura, linguagem e pensamento.4 A obra Contributos para a história da alimentação na Antiguidade, coordenada por Dra.Carmen Soares e Dra.Paula Barata Dias, confirma esta dimensão interdisciplinar, onde se cruzam literatura, cultura material, medicina, ética e práticas sociais.
Um caso particularmente interessante é Arquéstrato, poeta siciliano do século IV a.C., autor de um texto gastronómico fragmentário sobre as iguarias do mundo grego. A edição portuguesa de Dra. Carmen Soares é apresentada como a primeira tradução para português do mais antigo texto gastronómico grego que chegou até nós, embora fragmentário. O poema mostra uma alimentação sofisticada, associada às elites, aos ingredientes de qualidade, sobretudo peixe fresco, e a uma verdadeira geografia mediterrânica do bom gosto.
Noutro estudo, da Prof. Doutora Carmen Soares caracteriza Arquéstrato como autor do mais antigo texto sobrevivente da Grécia antiga sobre o prazer de consumir alimentos, com atenção aos ingredientes, às hierarquias de qualidade, aos sentidos e à história social. Este dado interessa-me porque mostra que a gastronomia antiga já pensava a escolha. Não se tratava apenas de comer, mas de distinguir: a origem, o método, a qualidade, o tempo, o modo de servir.
É aqui que Arquéstrato e Plutarco, embora tão diferentes, se aproximam. Arquéstrato pergunta qual é o melhor peixe, de onde vem, como deve ser preparado, que simplicidade o honra. Plutarco pergunta o que fazer com a crítica, com a rivalidade, com a presença incómoda do inimigo. Ambos partem de uma arte da seleção. Cozinhar bem é distinguir. Viver bem também. Na gastronomia, a rivalidade está sempre presente. Rivalizam regiões, famílias, restaurantes, cozinheiros, escolas, memórias e interpretações. Quem faz o melhor arroz de cabidela? Quem preserva melhor a açorda? Qual é o ponto certo do bacalhau? Até onde se pode reinventar uma receita sem a trair? Estas perguntas podem gerar vaidade e ressentimento, mas também podem guardar memória e elevar a exigência. Plutarco observa que a rivalidade pode tornar os homens mais atentos, como artistas que afinam melhor a execução quando sabem que são observados. O mesmo acontece na cozinha. Um cozinheiro que sabe estar a ser comparado prova com mais rigor, escolhe melhor a matéria-prima, respeita mais o tempo, escuta melhor o prato. A rivalidade, quando é governada pela razão, impede a acomodação. O perigo está em cozinhar contra alguém, e não a partir de si. Quando a rivalidade se torna obsessão, o adversário passa a ocupar o centro da mesa. Tudo se faz para responder, vencer, calar, humilhar. Mas quando a rivalidade é transformada, ela torna-se fermento. Não destrói; levanta. Não envenena; exige. Não define a nossa identidade; obriga-nos a aprofundá-la.
Esta lição parece-me essencial para qualquer trabalho criativo. Escrever, cozinhar, investigar, ensinar ou criar uma casa de comida implica sempre confronto com outros olhares. Há quem não compreenda, quem critique, quem copie, quem diminua, quem compare. Mas há também, nesse desconforto, uma possibilidade de depuração. O inimigo pode não merecer o nosso tempo; ainda assim, a inquietação que ele provoca pode mostrar-nos onde precisamos de crescer. A cozinha conhece bem os sabores difíceis. O amargo de certas folhas, a acidez do vinagre, o ardor da pimenta, o fumo, a fermentação e o sal são formas de intensidade. Nenhuma delas garante harmonia por si só. Mas sem elas a gastronomia perderia profundidade. Um prato feito apenas de doçura cansa. A gordura sem acidez pesa. A comida sem contraste fica plana. A vida moral, para Plutarco, também precisa de contraste. A amizade é necessária, mas pode tornar-se complacente. A aprovação conforta, mas pode adormecer. O inimigo, pelo contrário, introduz desconforto. Obriga a rever. Obriga a perguntar. Obriga a vigiar. Isto não significa desejar inimigos, cultivar ódio ou transformar a dor em ornamento. Significa apenas reconhecer que nem tudo o que nos corrige chega com delicadeza.
Há uma sabedoria gastronómica nesta aceitação. Cozinhar é lidar com resistência. A farinha empapa, o pão abate, o peixe passa do ponto, o caldo turva, o molho talha. A vida também talha. Relações azedam, palavras queimam, rivalidades fermentam. A diferença entre desperdício e cultura está na capacidade de intervir. Por isso, quando leio Plutarco, vejo menos um moralista distante e mais alguém que compreendeu uma verdade muito concreta: aquilo que nos contraria pode destruir-nos se for engolido cru; pode fortalecer-nos se for trabalhado pela razão. Um dos momentos mais fortes do tratado surge quando Plutarco transmite a resposta atribuída a Diógenes: a melhor forma de se defender de um inimigo é mostrar-se bom e honrado. Esta frase desloca tudo. A vitória não está em insultar melhor, nem em devolver a ofensa com mais violência. Está em tornar a acusação inútil pela qualidade da própria vida.
Em linguagem de cozinha, eu diria assim: não se responde a um mau comentário servindo ressentimento; responde-se servindo melhor. Não por submissão ao crítico, nem por desejo de agradar a todos, mas porque a excelência é uma forma de liberdade. Quem melhora por causa da crítica deixa de ser prisioneiro dela. Esta ética recusa dois atalhos. O primeiro é a vitimização, que transforma o inimigo em desculpa para a nossa imobilidade. O segundo é a vingança, que deixa o adversário escolher o tempero da nossa alma. Plutarco propõe uma terceira via: usar a censura para ganhar lucidez, a rivalidade para ganhar rigor e a hostilidade para ganhar domínio de si.
Ler Plutarco pela gastronomia ajuda-me a compreender melhor a atualidade deste tratado. Tirar proveito dos inimigos não significa admirar a inimizade, desculpar a maldade ou procurar conflito. Significa reconhecer que a vida, como a cozinha, raramente nos entrega apenas ingredientes dóceis. Há amargos, ácidos, durezas, excessos, rivalidades e críticas. A pergunta decisiva é saber se os deixamos apodrecer ou se os submetemos a uma arte. A gastronomia ensina que transformar não é esconder. O vinagre continua ácido, o fogo continua perigoso, o sal continua intenso. Mas, integrados numa composição inteligente, deixam de ser ameaça e tornam-se estrutura. Assim também o inimigo em Plutarco: não se converte magicamente em amigo, mas pode tornar-se ocasião de lucidez.
No fim, talvez seja isto que mais me prende neste texto: a ideia de que a virtude é uma cozinha interior. Nem sempre escolhemos os ingredientes que a vida nos dá, mas podemos escolher a forma como os trabalhamos. O inimigo é o sabor áspero que, tomado cru, envenena; transformado pela razão, pode dar profundidade ao prato. A mesa e a moral encontram-se nesse gesto comum, converte o adverso em alimento, a tensão em equilíbrio e o amargo em proveito.
[Comecei a escrever este texto em 2022, num dia em que não consegui aguentar o peso de uma porta aberta. Fechado o ciclo IAV. Grata as minhas professoras ♡ terminado hoje.]
Referências
Academia.edu — Plutarco. Como Tirar Proveito dos seus Inimigos
Plutarch, How to Profit by One's Enemies — University of Chicago / LacusCurtius
ToposText — Plutarch, How A Man May Receive Advantage From His Enemies
Carmen Soares — Publications
Soares, C.; Dias, P. B. (eds.), Contributos para a história da alimentação na Antiguidade
University of Colorado Boulder — The symposium in ancient Greek society
Carmen Soares — Arquéstrato. Iguarias do Mundo Grego: Guia Gastronómico do Mediterrâneo Antigo
Carmen Soares — Archestratus In Perspective: the Ingredients
Bryn Mawr Classical Review — Review of Wilkins & Hill, Archestratus: The Life of Luxury
O seu crescimento é notório, Maria José.
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